O Triunfo dos Porcos

Pela primeira vez, Benjamin consentiu em quebrar a sua regra e leu-lhe o que estava escrito na parede. Não havia lá nada, excepto um único mandamento. Dizia: TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS MAS ALGUNS SÃO MAIS IGUAIS QUE OUTROS Depois disto, ninguém estranhou que, no dia seguinte, todos os porcos que supervisionavam o trabalho da quinta levassem chicotes...
Atrevam-se a votar no MPT!!!
CAPÍTULO I
CAPÍTULO I O Sr. Jones, da Quinta Manor, tinha trancado os galinheiros, mas estava demasiado bêbado para se lembrar de fechar os postigos. Com o círculo de luz da lanterna dançando de um lado para o outro, atravessou o pátio aos tombos, livrou se das botas na porta das traseiras, serviu se de um último copo de cerveja do barril da copa e subiu para o quarto, onde a Sr.ª Jones já ressonava. |
| Actualizado em Quinta, 05 Maio 2011 16:23 |
CAPITULO II
CAPITULO II Três noites depois, o velho Major morreu serenamente durante o sono. O seu corpo foi enterrado ao fundo do pomar. |
| Actualizado em Quinta, 05 Maio 2011 16:24 |
CAPÍTULO III
Que trabalho e que canseira tiveram para ceifar o feno! Mas os seus esforços foram recompensados, pois a colheita foi mais bem sucedida do que esperavam. às vezes o trabalho era duro; os utensílios tinham sido concebidos para os seres humanos e não para animais e era uma grande desvantagem não serem capazes de utilizar nenhuma ferramenta que os obrigasse a permanecer de pé sobre as patas traseiras. Mas os porcos eram tão espertos que arranjaram solução para todas as dificuldades. Os cavalos, esses, conheciam cada palmo de terra e, de facto, percebiam muito mais sobre ceifar e enfardar do que Jones e os seus homens. Os porcos não trabalhavam: dirigiam e fiscalizavam o trabalho dos outros. Com o seu saber superior era natural que assumissem a liderança. Boxer e Clover atrelavam?se à ceifeira ou à enfardadeira (agora não precisavam de freios, nem de rédeas, claro) e percorriam com passo firme todo o campo, com um porco atrás, gritando "Vamos camaradas!" ou "Alto, camaradas!" conforme o caso. E todos os animais, até os mais humildes, trabalharam na ceifa e enfardamento do feno. Até os patos e galinhas contribuíram para isso, todo o dia ao sol, para a frente e para trás, transportando pequenas quantidades de feno no bico. No fim, terminaram a colheita dois dias mais cedo do que teriam terminado Jones e os seus homens. Além disso, era a maior colheita que a quinta já tivera. Não havia qualquer desperdício; NUM as galinhas e os patos, com os seus olhos perspicazes, tinham apanhado até à última espiga. E nenhum animal da quinta roubara sequer um bocado. Durante todo esse Verão, o trabalho da quinta decorreu com a regularidade de um relógio. Os animais sentiam?se felizes como nunca tinham pensado poder sentir?se. Cada bocado de comida era para eles intenso prazer, agora que era comida verdadeiramente sua, produzida por eles e para eles e não racionada por um dono rancoroso. Com o desaparecimento dos inúteis parasitas humanos, havia mais comida para todos. Também havia mais lazer, embora os animais fossem inexperientes. Depararam com muitas dificuldades; por exemplo, mais tarde, quando colheram os cereais, tiveram de fazer a debulha à moda antiga e separar as palhas soprando, visto que a quinta não tinha debulhadora; mas os porcos, com a sua inteligência, e Boxer com os seus extraordinários músculos, resolviam sempre tudo com sucesso. Boxer provocava admiração de todos. Já no tempo de Jones era um grande trabalhador, mas agora dir?se?ia possuir a força de três; havia dias em que todo o trabalho da quinta parecia recair sobre os seus fortes ombros. De manhã à noite empurrava e puxava, podendo sempre ser encontrado onde o trabalho era mais duro. Fizera um acordo com um dos galitos para o acordar todas as manhãs meia hora antes dos outros e ia fazer algum serviço voluntário onde lhe parecesse ser mais necessário, antes de começar o dia normal de trabalho. A sua resposta para todos os problemas e contrariedades, adoptada por ele como lema, era: ? Eu trabalharei mais! Mas a verdade é que todos trabalhavam segundo as suas capacidades. As galinhas e os patos conseguiram cinco alqueires de cereais durante a colheita, juntando os grãos disperses. Ninguém roubava, ninguém se queixava das rações; as discussões, lutas e ciúmes, constantes antigamente, tinham praticamente desaparecido. Ninguém fugia ao trabalho, ou quase ninguém. É verdade que Mollie tinha preguiça de se levantar de manhã e tinha o hábito de deixar o trabalho cedo, com a desculpa de que tinha uma pedra no casco. O comportamento do gato também era um pouco estranho. Depressa se notou que, quando havia trabalho, ninguém via o gato. Desaparecia durante horas a fio e reaparecia à hora das refeições ou à noite, depois de o trabalho ter terminado, como se não fosse nada com ele. Mas apresentava sempre óptimas desculpas e ronronava com tanta meiguice que era impossível não acreditar nas suas boas intenções. O velho burro Benjamin parecia não ter mudado com a Revolta. Executava o seu trabalho com a mesma obstinada lentidão, como no tempo de Jones; nunca se esquivava, mas também nunca se oferecia voluntariamente para qualquer tarefa extraordinária. Sobre a Revolta e suas consequências não emitia opiniões. Quando lhe perguntavam se não era mais feliz agora que Jones se fora, respondia apenas: Os burros têm uma vida longa. Nenhum de vocês ainda viu um burro morto. E os outros tinham de se contentar com esta lacónica resposta. Aos domingos não se trabalhava. O pequeno?almoço era uma hora mais tarde do que o costume e, a seguir, tinha lugar uma cerimônia que se realizava todas as semanas, sem falta. Primeiro, era içada a bandeira. Snowball tinha encontrado na casa dos arreios uma velha toalha de mesa verde, que fora da Sr.ª Jones, e pintou nela um casco e um chifre. Era içada no mastro do jardim todos os domingos de manhã. Snowball explicou que o verde representava os campos da Inglaterra, enquanto o casco e o chifre simbolizavam a futura República dos Animais, que surgiria quando finalmente a raça humana fosse derrotada. Depois de içada a grande bandeira, os animais reuniam?se no celeiro para uma reunião geral a que chamavam Assembleia. Nela planeavam o trabalho para a semana seguinte e colocavam?se questões, que eram debatidas. Eram sempre os porcos que apresentavam as resoluções. Os outros animais compreendiam como se votava, mas não conseguiam ter ideias próprias. Snowball e Napoleão eram de longe os mais activos nos debates, mas era notório que nunca estavam de acordo um com o outro: fosse qual fosse a sugestão o outro contrariava sempre. Mesmo quando se decidiu ? coisa que ninguém podia discordar - reservar um pequeno recinto situado atrás do pomar para repouso dos animais que ultrapassassem a idade activa, houve uma violenta discussão acerca da idade de reforma de cada espécie. Para terminar a Assembleia, cantavam sempre Animais de Inglaterra, e a tarde era reservada à diversão. Os porcos tinham reservado a casa dos arreios para seu quartel?general. Aí, à noite, aprendiam serralheria, carpintaria e outras artes, que estudavam em livros trazidos da casa grande. Snowball ocupava?se também com a organização daquilo a que chamava Comités de Animais. Infatigavelmente, formou o Comité de Produção de Ovos, para as galinhas, a Liga das Caudas Limpas, para as vacas, o Comité de Reeducação dos Camaradas Selvagens (cujo objectivo era o de domesticar ratos e coelhos), o Movimento de Branqueamento da Lã, para os carneiros e vários outros, além de classes para aprendizagem da leitura e escrita. Na generalidade, estes projectos falharam. A tentativa de domesticar os animais selvagens, por exemplo, fracassou praticamente desde o início. Continuavam a comportar?se como antes e, quando tratados com generosidade, aproveitavam?se disso. O gato aderiu ao Comité de Reeducação e foi muito activo durante alguns dias. Foi visto um dia sentado no telhado a conversar com uns pardais que estavam fora do seu alcance. Estava a dizer?lhes que agora todos os animais eram camaradas e que os que quisessem podiam empoleirar?se na sua pata; mas os pardais mantiveram?se à distância. As classes de leitura e escrita, porém, tiveram grande sucesso. Quando chegou o Outono, quase todos os animais da quinta estavam alfabetizados até certo ponto. Quanto aos porcos, já sabiam ler e escrever na perfeição. Os cães aprenderam a ler razoavelmente, mas estavam interessados somente na leitura dos Sete Mandamentos. Muriel, a cabra, lia melhor que os cães e às vezes, à noite, lia para os outros bocados de jornal que encontrava no lixo. Benjamin sabia ler como qualquer dos porcos, mas nunca exercitava essa faculdade. Tanto quanto sabia, dizia ele, nada havia que valesse a pena ser lido. Clover aprendeu todo o alfabeto, mas não conseguia juntar as letras. Boxer nunca foi capaz de passar da letra D. Desenhava na poeira A, B, C, D, com o seu grande casco, e depois ficava a olhar fixamente para as letras, com as orelhas deitadas para trás, às vezes sacudindo a crina, tentando com todas as suas forças lembrar?se da que vinha a seguir, mas nunca conseguia. Várias vezes aprendeu as letras E, F, G, H e, nessas alturas, descobria que tinha esquecido o A, o B, o C e o D. Finalmente, decidiu contentar?se com as primeiras quatro letras e escrevia?as uma ou duas vezes por dia, para refrescar a memória. Mollie recusou?se a aprender quaisquer letras, excepto as do seu nome. Fazia?as muito bem, com pequenos galhos e, em seguida, decorava?as com uma ou duas flores e passeava em volta delas, admirando o seu trabalho. Nenhum dos outros animais da quinta conseguiu ir além da letra A. Viu?se também que os animais mais estúpidos, como os carneiros, galinhas e patos, eram incapazes de decorar os Sete Mandamentos. Depois de muito pensar, Snowball declarou que os mandamentos podiam, efectivamente, ser reduzidos a uma simples máxima: "Quatro pernas bom, duas pernas mau". Isto, disse ele, resumia o princípio básico do Animalismo. Todo aquele que o compreendesse bem estaria livre das influências humanas. Os pássaros, a princípio, protestaram, já que lhes parecia que também eles tinham duas pernas, mas Snowball provou?lhes que não era assim, dizendo: ? As asas de um pássaro são órgãos de propulsão e não de manuseamento. Devem, portanto, ser considerados como pernas. A marca distintiva do Homem é a mão, instrumento com o qual faz todo o mal. Os pássaros não compreenderam o discurso de Snowball, mas aceitaram a sua explicação e os animais mais humildes dispuseram?se a decorar a nova máxima. "QUATRO PERNAS BOM, DUAS PERNAS MAU" foi escrito na parede do celeiro, por cima dos Sete Mandamentos e em letras maiores. Os carneiros, depois de decorarem a máxima, começaram a simpatizar com ela e frequentemente, quando estavam deitados no campo, começavam todos a balir, durante horas, sem se cansarem: Quatro pernas bom, duas pernas maul Quatro pernas bom, duas pernas mau! Napoleão não se interessava pelos comités de Snowball. Dizia que a educação dos mais novos era mais importante que aquilo que se poderia fazer pelos que já eram adultos. Aconteceu então que Jessie e Bluebell, logo a seguir à colheita do feno, tiveram filhos, nove robustos cachorros entre as duas. Assim que foram desmamados, Napoleão tirou?os as mães, dizendo que se responsabilizava pela sua educação. Levou?os para um sótão onde só se podia chegar com uma escada e lá os conservou, tão afastados do resto da quinta que os outros de pressa se esqueceram deles. O mistério do destino que era dado ao leite depressa se desvendou. Todos os dias era misturado na ração dos porcos. As primeiras maçãs já estavam maduras e a relva do pomar estava cheia de fruta caída. Os animais tinham suposto como certo que a fruta seria repartida igualmente por todos; um dia, contudo, recebeu?se ordem para recolher e trazer para a casa dos arreios toda a fruta caída, para uso dos porcos. Alguns dos outros animais resmungaram, mas não serviu de nada. Todos os porcos estavam de acordo neste ponto, até Snowball e Napoleão. Squealer foi enviado para dar explicações aos outros. Camaradas! ? gritou ele. ? Com certeza não pensam, espero eu, que os porcos fazem isto com um espírito de egoísmo e superioridade. Na realidade, muitos de nós não gostam de leite e maçãs. O nosso único objectivo, ao ficar com estas coisas, é preservar a saúde. O leite e as maçãs (e isto, camaradas, é comprovado pela ciência) contêm substâncias absolutamente necessárias ao bem?estar de um porco. Nós, porcos, trabalhamos com o cérebro. Toda a administração e organização desta quinta dependem de nós. Dia e noite zelamos pelo vosso bem?estar. É por causa de vocês que nós bebemos leite e comemos essas maçãs. Sabem o que aconteceria se nós, porcos, não cumpríssemos o nosso dever? Jones voltaria para a quinta! Sim, Jones voltaria! Decerto, camaradas ? gritava Squealer, quase em súplica, balouçando?se de um lado para o outro e sacudindo a cauda ?, decerto nenhum de vocês quer ver Jones regressar, pois não? Se havia coisa de que os animais estavam bem certos, era que não queriam que Jones voltasse. Posta a questão desta forma, não tiveram mais nada a dizer. A importância de manter os porcos de boa saúde era óbvia. Por isso, ficou acordado, sem mais discussão, que o leite e as maçãs do chão (e também as que fossem apanhadas quando amadurecessem) deviam ficar reservados apenas para os porcos.
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| Actualizado em Quinta, 05 Maio 2011 16:24 |
CAPITULO IV
No fim do Verão, a notícia do que acontecera na Quinta dos Animais já se tinha espalhado por toda a região. Todos os dias Napoleão mandava grupos de pombos com instruções para se misturarem com os animais das quintas vizinhas, contarem a história da Revolta e ensinarem a música de Animais da Inglaterra. |
| Actualizado em Quinta, 05 Maio 2011 16:25 |
CAPITULO V
À medida que o Inverno avançava, Moffie tornava?se cada vez mais maçadora. Todas as manhãs vinha atrasada para o trabalho, com a desculpa de ter acordado tarde, e queixava?se de dores misteriosas, embora o seu apetite fosse excelente. A pretexto de tudo e de nada fugia ao trabalho e ia para o bebedouro, onde ficava como tola, admirando a sua imagem reflectida na água. Mas corriam também rumores acerca de algo mais sério. Um dia, quando Moffie passeava alegremente no pátio, agitando a longa cauda e mastigando uma haste de feno, Clover chamou?a à parte. Moffie ? disse ela ?, tenho uma coisa muito importante para te dizer. Esta manhã vi?te a olhar por cima da cerca que separa a Quinta dos Animais de Foxwood. Um dos homens do Sr. Pilkington estava do outro lado da cerca. E... eu estava muito longe, mas estou quase certa de o ter visto... ele falava contigo e tu deixava?lo afagar?te o focinho. Que quer isto dizer, Mollie? ? Ele não o fez! Eu não deixei! Não é verdade! ? gritou ela, começando a empinar?se e a rasgar o chão com o casco. Mollie! Olha?me de frente. Dás?me a tua palavra de honra que esse homem não estava a fazer?te festas no focinho? Não é verdade! ? repetiu Mollie, mas não conseguiu encarar Clover e, momentos depois, desatou a fugir, galopando em direcção ao campo. Um pensamento ocorreu a Clover. Sem dizer nada aos outros, foi à cocheira de Mollie e remexeu a palha com o casco. Encontrou um monte de torrões de açúcar e algumas fitas de várias cores. Três dias depois, Mollie desapareceu. Durante algumas semanas nada se soube do seu paradeiro, até que os pombos contaram que a tinham visto do outro lado de Willingdon. Estava entre os varais de uma moderna carruagem, pintada de vermelho e preto, parada à porta de uma hospedaria. Um homem gordo e corado, de calções de xadrez e polainas, com ar de estalajadeiro, estava a afagar?lhe o focinho e a dar?lhe torrões de açúcar. O seu pêlo estava tosquiado e trazia uma fita escarlate na crina. Parecia estar a divertir?se, disseram os pombos. Nenhum dos animais tornou a falar em Mollie. Em Janeiro, o tempo esteve horrível. A terra estava dura como ferro e nada se podia fazer nos campos. No celeiro grande realizavam?se muitas reuniões e os porcos ocupavam?se com o planeamento do trabalho da estação seguinte. Começou a ser aceite que os porcos, manifestamente mais inteligentes que os outros animais, decidissem todas as questões de administração da quinta, embora as suas decisões devessem ser aprovadas por maioria. Este acordo teria resultado se não fossem as disputas entre Snowball e Napoleão. Em todos os pontos em que era possível haver desacordo, eles discordavam. Se um deles sugeria que se semeasse maior superficie de cevada, era certo que o outro reclamava uma maior superfície de aveia, e se um dizia que tal ou tal campo era bom para couves, o outro afirmava que não servia para mais nada senão para tubérculos. Cada um tinha os seus seguidores e, por vezes, havia debates violentos. Nas Assembleias, Snowball obtinha frequentemente a maioria por causa dos seus brilhantes discursos, mas Napoleão era superior a ele a angariar apoios fora das reuniões. Era especialmente bem sucedido com os carneiros. Estes, ultimamente, tinham caído no hábito de balir "Quatro pernas bom, duas pernas mau", quer viesse a propósito, quer não, e muitas vezes interrompiam a Assembleia com isto. Começou a notar?se até que o momento mais provável para encetarem o berreiro era aquele em que os discursos de Snowball atingiam o seu ponto decisivo. Snowball estudara atentamente alguns números antigos da revista Agricultor e Criador de Gado que encontrara na casa grande e fizera imensos planos para inovações e melhoramentos. Falava sabiamente em drenagens, ensilagem e fertilização e organizou um complexo esquema para que todos os animais largassem o estrume directamente nos campos, cada dia num lugar diferente, para poupar o trabalho de o acarretar. Napoleão não tinha planos seus, mas dizia, calmamente, que os de Snowball não serviam para nada e parecia estar à espera da sua hora. Mas, de todas as suas controvérsias, a mais azeda foi a que teve lugar por causa do moinho de vento. No grande campo de pastagem, não muito longe dos edifícios, havia um pequeno monte, que era o ponto mais alto da quinta. Depois de estudar o terreno, Snowball declarou que aquele era o lugar indicado para um moinho de vento, que accionaria um dínamo e forneceria energia eléctrica à quinta. eluminaria os estábulos e mantê?los?ia quentes no Inverno e também faria funcionar máquinas para cortar palha e feno, triturar a beterraba e ordenhar as vacas. Os animais nunca tinham ouvido falar em nada disto (a quinta era antiquada e apenas possuía máquinas primitivas) e ouviam estupefactos, enquanto Snowball evocava imagens de máquinas fantásticas que fariam o trabalho enquanto eles pastavam à vontade pelos campos ou se instruíam, lendo e conversando. Os planos de Snowball para o moinho foram elaborados em poucas semanas. Os pormenores mecânicos foram extraídos de três livros que tinham pertencido ao Sr. Jones: Mil Coisas úteis para Fazer em Casa, Todos os Homens são Pedreiros e Electricidade para Principiantes. Snowball utilizava como gabinete de trabalho um barracão que costumava servir para as chocadeiras e que tinha um soalho liso, de madeira, onde se podia desenhar. Fechava?se ali durante horas. Mantinha os livros abertos por meio de pedras e, com um pedaço de giz entalado na bifurcação do pé, movimentava?se de um lado para o outro, desenhando linha atrás de linha e soltando pequenos grunhiUdos de satisfação. Pouco a pouco, os planos iam?se transformando num complicado conjunto de manivelas e rodas dentadas, cobrindo mais de metade do chão, completamente ininteligível para os outros animais, mas bastante impressionante. Todos vinham ver os desenhos de Snowball pelo menos uma vez por dia. Até as galinhas e patos vinham e esforçavam?se ao máximo para não pisarem as marcas de giz. Só Napoleão se mantinha à parte. Pronunciara?se contra o moinho de vento desde o Princípio. Um dia, contudo, apareceu inesperadamente para examinar os planos. Andou à volta dos desenhos, olhou de perto cada detalhe, farejou?os uma ou duas vezes, ficou durante um bocado a mirá?los pelo canto do olho e, de repente, levantou a perna e urinou sobre os desenhos, saindo sem uma palavra. Toda a quinta se encontrava profundamente dividida em relação ao moinho. Snowball não negava que a sua construção seria tarefa dificil. As pedras teriam de ser trazidas da pedreira e levantadas em paredes, as velas teriam de ser feitas e, depois disso, seria preciso arranjar dínamos e cabos. (Como arranjar tudo isso é que Snowball não disse.) Mas afirmava que tudo se conseguiria fazer num ano. Depois disso, dizia ele, poupar?se?ia tanto trabalho que os animais só precisariam de trabalhar três dias por semana. Napoleão, por seu turno, argumentava que a prioridade de momento era aumentar a produção alimentar e que, se fossem perder tempo com o moinho, morreriam todos à fome. Os animais agrupavam?se em duas facções, cujos slogans eram "Vota em Snowball, pela semana de três dias" e "Vota. emNapoleão, por uma manjedoura cheia". Benjamin foi o único que não aderiu a nenhuma facção. Recusava?se a acreditar que viesse a ter mais comida, ou que o moinho poupasse trabalho. Com moinho ou sem moinho, dizia, a vida havia de continuar como sempre, isto é, mal. Além das disputas sobre o moinho, havia a questão da defesa da quinta. Ficou bem compreendido que, embora os seres humanos tivessem saído derrotados na Batalha do Estábulo, podiam fazer outra tentativa, mais determinada, para reaver a quinta e reinstalar o Sr. Jones. Tinham razões para o fazer, tanto mais que a notícia da sua derrota se espalhara pela região e tornara todos os animais das quintas vizinhas mais rebeldes do que nunca. Como de costume, Snowball e Napoleão estavam em desacordo. Segundo Napoleão, o que os animais deviam fazer era arranjar armas de fogo e treinar?se no seu uso. Para Snowball, deviam enviar cada vez mais pombos e fomentar a revolta entre os animais das outras quintas. Um argumentava que, se não se conseguissem defender, sujeitar?se?iam a ser conquistados; o outro sustentava que, se a rebelião surgisse em toda a parte, não teriam necessidade de se defenderem. Os animais ouviram primeiro Napoleão, depois Snowball e não puderam decidir?se sobre quem tinha razão; na verdade, estavam sempre de acordo com aquele que falava no momento. Por fim, chegou o dia em que Snowball terminou os seus planos. Na Assembleia do domingo seguinte seria posta à votação a decisão de começar ou não a construir o moinho. Quando os animais se reuniram no celeiro, Snowball levantou?se e, conquanto ocasionalmente interrompido pelos balidos dos carneiros, expôs as razões pelas quais defendia a construção do moinho. Depois, Napoleão levantou?se para responder. Disse, com muita serenidade, que o moinho era um disparate e que aconselhava todos a votar contra e voltou a sentar?se; não falou mais de meio minuto e pareceu ficar quase indiferente ao efeito produzido. Snowball levantou?se com um salto e, fazendo calar os carneiros com um berro, pois tinham recomeçado a balir, encetou um apaixonado apelo a favor do moinho. Até aqui os animais tinham estado divididos mais ou menos igualmente nas suas simpatias, mas a eloquência de Snowball arrebatou?os quase instantaneamente. Calorosamente, traçou um quadro de como seria a Quinta dos Animais quando o trabalho sórdido fosse retirado de cima das costas dos animais. A sua imaginação ia para além das máquinas de cortar forragens e nabos. A electricidade, dizia ele, fazia mover as debulhadoras, arados, grades, cilindros, segadeiras e enfardadeiras, além de fornecer a todos os estábulos luz eléctrica, água quente e fria e aquecimento. Quando acabou de falar, não havia nenhuma dúvida quanto ao sentido do voto. Mas, neste momento, Napoleão levantou?se e, lançando a Snowball um estranho olhar de esguelha, soltou um grito agudo, como até então ninguém lhe ouvira. Logo em seguida ouviu?se lá fora um terrível ladrar e nove enormes cães, usando coleiras com tachas de latão, entraram de rompante no celeiro. Foram directos a Snowball, que apenas teve tempo de saltar do seu lugar para escapar aos seus aguçados dentes. No momento seguinte estava cá fora, perseguido por eles. Demasiado espantados e assustados para poderem falar, todos os animais se amontoaram à porta para assistir à perseguição. Snowball corria pelo extenso campo de pastagem que conduzia à estrada. Corria como só um porco consegue correr, mas os cães iam mesmo atrás dele. De repente escorregou e parecia certo que o agarrariam. Então levantou?se, correndo mais do que nunca; mas os cães estavam outra vez quase a apanhá?lo. Um deles quase fincou os dentes na cauda de Snowball, mas este sacudiu?a mesmo a tempo. Fez então um esforço suplementar e, com uns centímetros de vantagem, esgueirou?se por um buraco na sebe e nunca mais foi visto. Silenciosos e horrorizados, os animais arrastaram?se outra vez até ao celeiro. Os cães regressaram, aos saltos. A princípio ninguém conseguia imaginar de onde tinham vindo tais criaturas, mas depressa se esclareceu o problema: eles eram os cachorros que Napoleão tirara às mães e criara em segredo. Embora ainda não fossem adultos, eram corpulentos e tinham a ferocidade de lobos. Mantiveram?se junto de Napoleão e foi observado que abanavam as caudas para ele, do mesmo modo que os outros cães costumavam fazer com o Sr. Jones. Napoleão, seguido dos seus cães, subiu para a plataforma erguida no chão, lugar que antes pertencera ao Major, para fazer o seu discurso. Anunciou que, a partir de agora, as Assembleias das manhãs de domingo iam acabar. Eram desnecessárias, disse ele, e uma perda de tempo. De futuro, todas as questões relacionadas com o trabalho da quinta seriam resolvidas por um comité de porcos, presidido por ele. Estes reunir?se?iam em segredo e depois comunicariam as suas resoluções aos outros. Os animais continuariam a reunir?se aos domingos de manhã para saudar a bandeira, cantar Animais da Inglaterra e receber dos porcos as ordens para a semana; mas não haveria mais debates. Apesar de ainda chocados com a expulsão de Snowball, os animais ficaram desanimados com este anúncio. Alguns deles teriam protestado, se tivessem encontrado os argumentos certos. Até Boxer ficou um pouco perturbado. Inclinou as orelhas para trás, sacudiu várias vezes a crina e fez um esforço para ordenar os seus pensamentos; mas, por fim, não conseguiu pensar em nada para dizer. Os próprios porcos ficaram apreensivos, mostrando, no entanto, que eram mais desembaraçados. Quatro leitões que estavam na fila da frente soltaram gritos agudos de desaprovação e levantaram?se, começando a falar. De súbito, os cães que rodeavam Napoleão largaram algumas rosnadelas fundas, ameaçadoras e os porcos calaram?se e sentaram?se de novo. Então, os carneiros desataram num tremendo berreiro, balindo "Quatro pernas bom, duas pernas mau" durante quase um quarto de hora, o que pôs fim a qualquer possibilidade de discussão. Mais tarde, Squealer andou pela quinta a explicar aos outros as novas disposições. ? Camaradas ? disse ele , espero que todos vocês saibam apreciar o sacrifício que o camarada Napoleão fez, tomando à sua conta este trabalho extra. Não julguem, camaradas, que ser chefe é um prazer! Pelo contrário, é uma grande e pesada responsabilidade. Ninguém crê mais firmemente do que o camarada Napoleão que todos os animais são iguais. Ele ficaria até muito feliz se pudesse deixar?vos tomar as vossas próprias decisões. Mas as vossas resoluções poderiam ser erradas, camaradas, e então que nos aconteceria? Suponhamos que vocês tinham decidido seguir Snowball, com as suas fantasias de moinhos... Snowball, que, como sabemos, não passava de um criminoso? ? Ele lutou com valentia na Batalha do Estábulo ? disse alguém. ? Valentia não basta ? volveu Squealer. ? Lealdade e obediência são as mais importantes. E quanto à Batalha do Estábulo, tempo virá, penso em que reconheçamos que o papel que se atribuiu a Snowball foi muito exagerado. Disciplina, camaradas, disciplina de ferro! Essa é hoje a palavra de ordem. Um passo em falso e os nossos inimigos cairiam em cima de nós. Certamente, camaradas, vocês não querem que Jones volte, pois não? Mais uma vez o argumento era irresponsável. Claro que os animais não queriam que Jones voltasse; se a manutenção dos debates aos domingos de manhã podia trazê?lo de volta, então estes tinham de acabar. Boxer, que já tivera tempo de pôr as ideias em ordem, exprimiu a opinião geral, dizendo: ? Se o camarada Napoleão o diz, deve estar certo. E, daí em diante, adoptou a máxima: "Napoleão tem sempre razão", ajuntar ao seu lema "Eu trabalharei mais". Nesta altura o tempo tinha melhorado e a época da lavra começara. O barracão onde Snowball tinha desenhado os seus planos para o moinho fora fechado e supunha?se que os planos tinham sido apagados do chão. Todos os domingos, às dez horas, os animais reuniam?se no celeiro grande para receber as ordens para a semana seguinte. O crânio do velho Major, agora já sem carne, fora desenterrado do pomar e colocado sobre um cepo junto do pau da bandeira, ao lado da espingarda. Depois do içar da bandeira, os animais eram obrigados a desfilar reverentemente à frente do crânio, antes de entrarem no celeiro. Agora não se sentavam todos juntos, como no passado. Napoleão, Squealer e outro porco, chamado Minimus, que tinha um notável dom para compor canções e poemas, sentavam?se na frente da plataforma, com os nove cães formando um semicírculo à volta deles e os outros porcos atrás. Os outros animais sentavam?se de frente para eles, no meio do celeiro. Napoleão lia as ordens para a semana num estilo áspero, quase marcial, e, depois de cantarem uma única vez Animais de Inglaterra, todos dispersavam. No terceiro domingo depois da expulsão de Snowball, os animais foram surpreendidos com o anúncio de Napoleão de que, afinal, o moinho de vento seria construido. Não deti justificações para o facto de ter mudado de ideias, apenas preveniu que esta tarefa extraordinária iria custar muito trabalho; talvez fosse preciso até reduzir as rações. Os planos, contudo, tinham sido elaborados até ao mais ínfimo pormenor. Uma comissão especial de porcos estivera a trabalhar neles durante as últimas três semanas. A construção do moinho, com diversos melhoramentos, deveria demorar dois anos. Nessa noite, Squealer explicou particularmente aos outros animais que Napoleão, na verdade, nunca se opusera à construção do moinho. Pelo contrário, fora ele a defendê?la no princípio e o plano que Snowball tinha desenhado no chão da casa das chocadeiras fora roubado de entre os papéis de Napoleão. O moinho era, na realidade, uma criação de Napoleão. Alguém perguntou porque é que, nesse caso, ela falara contra ele com tanta veemência. Squealer respondeu com muita astúcia. Disse que isso fora uma manobra inteligente do camarada Napoleão. Parecera opor?se ao moinho apenas com o intuito de se ver livre de Snowball, que era um mau carácter e uma péssima influência. E, agora que Snowball saíra do caminho, o plano podia ser executado sem a sua interferência. A isto chamava?se táctica, disse Squealer. Balançando?se e sacudindo a cauda, com um riso jovial, repetiu várias vezes: Táctica, camaradas, táctica! Os animais não sabiam bem o que a palavra significava, mas Squealer falava com tanta persuasão e os três cães, que por acaso estavam com ele, rosnavam tão ameaçadoramente, que eles aceitaram a sua explicação sem fazer mais perguntas. |
| Actualizado em Quinta, 05 Maio 2011 16:25 |
CAPITULO VI
Durante todo esse ano, os animais trabalharam como escravos. Mas estavam felizes; não mostravam má vontade em relação a nenhum esforço ou sacrifício, conscientes de que tudo o que faziam era em seu próprio benefício e no dos da sua espécie que depois viessem, e não em proveito de um grupo de inúteis e gatunos seres humanos. Durante a Primavera e o Verão trabalharam sessenta horas por semana e, em Agosto, Napoleão anunciou que também haveria trabalho aos domingos de tarde. Este serviço era rigorosamente voluntário, mas todos os animais que se esquivassem a ele veriam as suas rações reduzidas a metade. Mesmo assim, foi necessário deixar algumas tarefas por fazer. A colheita foi um pouco mais fraca que no ano anterior e dois campos que deveriam ter sido semeados com tubérculos no princípio do Verão não o foram, porque a lavoura não tinha terminado a tempo. Era de prever que o próximo Inverno iria ser duro. A construção do moinho apresentava dificuldades inesperadas. Havia na quinta uma boa pedreira de calcário e, num dos alpendres, encontrou?se muita areia e cimento, portanto todos os materiais estavam à mão. Mas o problema que de construção os animais a princípio não sabiam como resolver era o de como cortar as pedras em bocados do tamanho adequado. Parecia que a única maneira de e alavanca o fazer consistia em utilizar picaretas s, instrumentos que nenhum animal podia utilizar porque nenhum deles conseguia permanecer apoiado apenas nas pernas traseiras. Só depois de semanas de esforços vãos é que alguém teve uma boa ideia ? utilizar a força da gravidade. Enormes blocos de pedra, grandes de mais para serem usados como estavam, jaziam no leito da pedreira. Os animais passavam cordas à roda deles e depois , todos juntos, vacas, cavalos, carneiros, todos os que eram capazes de segurar a corda até os porcos por vezes ajudavam, nos momentos críticos ? arrastava mpedreira e aí largavam?nos e eles, cá em assim baixo, partiam?se em bocados to mais simples. Os a pedra, já partida, era mui cavalos levavam carregamentos dela, os carneiros até Mu?riel e arrastavam blocos mais pequenos, Benjamin se atrelavam a uma velha carroça e davam a sua contribuição. No fim do Verão, estava reunida uma quantidade suficiente de pedra e a construção começou, sob a superintendência dos porcos. Mas era um processo lento e trabalhoso. Frequentemente demorava um dia inteiro arrastar um só bloco até ao cimo da pedreira e, às vezes, quando era empurrado cá para baixo, não se partia. Nada se teria conseguido sem Boxer, cuja força parecia ser igual à de todos os outros animais juntos. Quando o bloco começava a escorregar e os animais gritavam desesperados ao sentirem?se arrastados para baixo, era sempre Boxer que aguentava a corda, puxando e fazendo parar o bloco de pedra. Vê?lo movendo?se penosamente encosta acima, centímetro a centímetro, a arfar, arranhando o chão com as pontas dos cascos, com os possantes músculos empapados em suor, enchia os animais de admiração. Clover, às vezes, aconselhava?o a ter cuidado, a não se esforçar demasiado, mas Boxer não lhe dava ouvidos. As suas duas máximas, "Eu trabalharei mais" e "Napoleão tem sempre razão", pareciam?lhe resposta suficiente para todos os problemas. Tinha agora combinado com o galito este acordá?lo três quartos de hora mais cedo, em vez de meia hora. E, nos momentos de lazer, que agora eram raros, ia sozinho para a pedreira, recolhia um carregamento de pedra partida e levava?o para o local da construção, sem ajuda. Os animais não passaram mal esse Verão, apesar da dureza do trabalho. Se não tinham mais comida que no tempo de Jones, pelo menos não tinham menos. A vantagem de só terem de se alimentar a si próprios e não precisarem de sustentar também cinco esbanjadores seres humanos era tão grande que seriam precisos muitos desaires para a superar. E, nalguns casos, os métodos animais de executar as tarefas eram mais eficientes que os dos homens e poupavam esforços. Trabalhos como a monda, por exemplo, podiam ser realizados com uma perfeição impossível de atingir pelos seres humanos. E como agora nenhum animal roubava, era desnecessário colocar vedações entre os campos de pastagem e a terra arável, o que economizava muito trabalho com a manutenção de sebes e cancelas. No entanto, à medida que o Verão avançava, várias carências imprevistas começaram a fazer?se sentir. Havia falta de petróleo, pregos, corda, biscoitos para cão e ferro para as ferraduras dos cavalos, coisas que não podiam ser reproduzidos na quinta. Mais tarde seria preciso arranjar também sementes e adubos artificiais, além de várias ferramentas e, finalmente, a maquinaria para o moinho. Como obter tudo isto, ninguém podia imaginar. Num domingo de manhã, quando os animais se reuniram para receber ordens, Napoleão anunciou que tinha decidido adoptar uma nova política. Daqui em diante, a Quinta dos Animais iria negociar com as quintas vizinhas: não com objectivos comerciais, mas com o intuito claro, de simplesmente obter materiais de que necessitavam com urgência. ?se As necessidades do moinho deviam sobrepor a todas as outras, dizia ele. Estava, por isso, a tratar de vender uma meda de feno e parte da colheita de trigo do ano em curso e, mais tarde, se fosse preciso mais dinheiro, teriam de vender ovos, para os quais havia sempre um mercado, em Willingdon. As galinhas, disse ? NaPoleão, deviam aceitar com prazer esse sacrificio, como uma contribuição especial para a construção do moinho. Mais uma vez os animais sentiram uma vaga de inquietação. Nunca tratar com seres humanos, nunca negociar, nunca tocar em dinheiro ? não tinham sido estas as resoluções tomadas naquela primeira Assembleia triunfante, depois da expulsão de Jones? Todos os animais se lembravam de ter aprovado tais resoluções, ou pelo menos pensavam lembrar?se. Os quatro leitões que tinham protestado quando Napoleão aboliu as Assembleias levantaram timidamente as vozes, mas foram imediatamente silenciados por uma terrível rosnadela dos cães. Depois, como já era habitual, os carneiros começaram a berrar "Quatro pernas bom, duas pernas mau!" e o momentâneo embaraço passou. Finalmente, Napoleão levantou a pata pedindo silêncio e comunicou que já tinha tomado todas as medidas. Não seria necessário nenhum animal entrar em contacto com seres humanos, o que seria manifestamente indesejável. Ele tencionava encarregar?se do pesado fardo. O Sr. ~niper, um advogado que vivia em Willingdon, concordara em actuar como intermediário entre a Quinta dos Animais e o mundo exterior e visitaria a quinta todas as segundas?feiras de manhã, para receber instruções. Napoleão terminou o seu discurso com o grito habitual: "Viva a Quinta dos Animais!" e, depois de cantarem Animais da Inglaterra, foram?se embora. A seguir, Squealer percorreu a quinta tranquilizando os animais. Garantiu?lhes que a resolução de nunca negociarem, nem utilizarem dinheiro nunca fora aprovada, ou mesmo sugerida. Era pura imaginação, talvez ligada no princípio às mentiras postas a circular por Snowball. Alguns animais sentiam ainda algumas dúvidas, mas Squealer perguntou?lhes sagazmente: ? Estão certos de que isso não foi um sonho vosso, camaradas? Têm algum testemunho de tal re resolução? Está escrita nalgum lado? E, visto ser verdade que nada disso estava escrito, os animais convenceram?se de que se tinham enganado. O Sr. Whymper visitava a quinta, Todas as segundas?feiras como o combinado. Era um homem pequeno, com aspecto de fuinha, de suíças, um advogado com pouco trabalho, mas suficientemente esperto para perceber, antes de toda a gente, que a Quinta dos Animais precisava de um agente e que valeria a pena aproveitar as comissões. Os animais observavam as suas idas e vindas com uma espécie de receio e evitavam?no o mais possível. No entanto, o espectáculo de Napoleão, apoiado nas suas quatro pernas, dando ordens a Whymper, que estava sobre duas, estimulava o seu orgulho e fazia, em parte, com que aceitassem a nova disposição. As suas relações com a raça humana não eram, contudo, como tinham sido antes. Os seres humanos não odiavam menos a Quinta dos Animais, agora que estava a prosperar; na verdade, odiavam?na mais do que nunca. Todos os seres humanos acreditavam firmemente que a quinta, mais cedo ou mais tarde, iria à falência e, sobretudo, que o moinho vento seria um fracasso. Encontravam?se nos bares e mostravam uns aos outros, através de diagramas, que o moinho estava sujeito a desmoronar?se, ou que, se se fixasse de pé, nunca trabalharia. Mas, embora contrariados, tinham revelado um certo respeito pela eficiência com que os animais resolviam os seus assuntos. Um sintoma disto era terem começado a chamar a Quinta dos Animais por este nome, deixando de fingir que se chamava Quinta Manor. Tinham também abandonado a defesa de Jones, que perdera esperança de reaver a sua quinta e fora viver para outra região. A não ser por intermédio de Whymper, não havia até agora contacto entre a Quinta dos Animais e o mundo exterior; no entanto, corriam rumores de que Napoleão estava em vias de iniciar um acordo de negócios definido, ou com o Sr. Frederick de Pinchfield, ou com o Sr. Pilkington, de Foxwood, mas nunca, dizia?se, com os dois simultaneamente. Foi por esta altura que os porcos, subitamente, ocuparam a casa da quinta e se instalaram lá. De novo os animais pareceram recordar?se de uma resolução contrária a isto, aprovada no princípio, e de novo Squealer os convenceu de que não era assim. Era absolutamente necessário, disse ele, que os porcos, que eram o cérebro da quinta, tivessem um lugar sossegado para trabalhar. Também dava mais dignidade ao chefe (ultimamente, quando se referia a Napoleão, chamava?lhe "chefe") viver numa casa do que numa simples pocilga. Apesar da explicação, alguns dos animais ficaram perturbados quando souberam que os porcos não só faziam as refeições na cozinha e se serviam da sala para recreio, mas também dormiam nas camas. Boxer minimizava o facto com a sua máxima usual: "Napoleão tem sempre razão!", mas Clover, que pensava lembrar?se de uma regra definida contra as camas, foi até ao fundo do celeiro e tentou decifrar os Sete Mandamentos que estavam escritos na parede. Não sendo capaz de ler mais do que letras soltas, foi procurar Muriel. Muriel ? pediu ? lê?me o Quarto Mandamento. Não diz qualquer coisa sobre nunca dormir num a cama? Com alguma dificuldade, Muriel começou a soletrar as palavras. Diz assim: "Nenhum animal dormirá numa cama com lençóis" anunciou finalmente. Curiosamente, Clover não se lembrava de nenhuma menção feita a lençóis no Quarto Mandamento; mas, como estava escrito na parede, ela devia ter sido feita. E Squealer, que por acaso ia a passar ali naquele momento, acompanhado por dois ou três cães, conseguiu colocar as coisas no seu lugar, dizendo: ouviram dizer, camaradas, que nós agora dormimos nas camas da casa grande? E porque não? Não pensam, decerto, que alguma vez houve uma regra contra camas! Uma cama é apenas um lugar para dormir. Um monte de palha num estábulo é uma cama, bem vistas as coisas. A regra era contra os lençóis, que são uma invenção humana: Nós tirámos os lençóis da cama e dormimos entre os cobertores. E que confortáveis são as camas! Mas não tão confortáveis como nós precisamos, afianço?vos, camaradas, com todo o trabalho cerebral que temos agora, Vocês, certamente, não querem roubar?nos o nosso repouso, pois não, camaradas? Não querem ver?nos demasiado cansados, deixando de cumprir os nossos deveres, pois não? Com certeza, nenhum de vocês deseja o regresso de Jones! De imediato os animais lhe reafirmaram que não e nada mais se disse sobre o facto de os porcos dormirem em camas na casa da quinta. E quando, uns dias maistarde, foi anunciado que os porcos, agora, passariam a levantar?se uma hora mais tarde que os outros, também nenhum protesto se ouviu. Quando chegou o Outono, os animais estavam cansados, mas felizes. Tinham tido um ano difícil e, depois da venda de parte do feno e dos cereais, a reserva de alimentos para o Inverno não era lá muito abundante, mas o moinho compensava tudo. A construção ia quase a meio. Depois da colheita houve uma temporada de tempo seco e os animais trabalharam mais do que nunca, achando que valia bem a pena arrastarem?se para cima e para baixo com os blocos de pedra, se isso contribua para elevar um pouco mais as paredes. Boxer até vinha trabalhar de noite, à luz da lua cheia, durante uma ou duas horas. Nos momentos livres, os animais passeavam à roda do moinho inacabado, admirando a solidez e perpendicularidade das paredes e espantando?se por terem sido capazes de construir algo tão imponente. Só o velho Benjamim se recusava a mostrar entusiasmo pelo moinho, embora, como de costume, não pronunciasse um único som para além do misterioso comentário de que os burros têm uma longa vida. Novembro chegou, com os ventos furiosos de sudoeste. A construção teve de parar porque havia humidade de mais para misturar o cimento. Por fim, veio uma noite em que o temporal foi tão violento que os edifícios da quinta oscilaram nos alicerces e algumas telhas foram arrancadas do telhado do celeiro. As galinhas acordaram aterrorizadas, pois tinham todas Sonhado com um tiro ouvido ao longe. De manhã, ao saírem dos estábulos, os animais viram que o pau da bandeira tinha caído e um ulmeiro ao fundo do pomar tinha sido do como um rabanete. Tinham acabado de arrancar reparar nisso, quando um grIto de desespero saiu olhos, da garganta de cada animal. Diante dos seus uma cena terrível: o moinho estava em ruínas. Unanimemente, precipitaram?se para o local. Napoleão, que raramente dava um passo, correu à frente de todos. Sim, lá estava, o fruto de tanta luta, reduzido aos seus alicerces, com as pedras que eles tinham partido e acarretado com tanto esforço todas espalhadas à volta. Incapazes de falar a princípio, olhavam pesarosamente as pedras tombadas. Napoleão andava de lá para cá em silêncio, farejando o chão de vez em quando. A cauda estava hirta e estremecia vivamente de um lado para o outro, um sinal que nele significava intensa actividade mental. De repente estacou, como se tivesse tomado uma decisão. Camaradas ? disse calmamente ?, sabem quem é o responsável por isto? Sabem quem é oinimigo que veio aqui durante a noite e deitou abaixo o nosso moinho? SNOWBALU ? A sua voz parecia um trovão. ? Snowball fez isto! Por pura maldade, pensando poder atrasar os nossos planos e vingar?se da sua vergonhosa expulsão, esse traidor rastejou até aqui a coberto da noite e destruiu o nosso trabalho de quase um ano. Camaradas, aqui e agora pronuncio a sentença de morte para Snowball. Concedo a medalha de "Animal Heróico de Segunda Classe" e meio alqueire de maçãs a quem o trouxer perante a justiça. Um alqueire de maçãs a quem o capturar vivo! Os animais ficaram chocadíssimos ao saberem que Snowball podia ser culpado de tal acto. Ouviu?se um brado de indignação e todos começaram a pensar na maneira de apanhar Snowball, se ele voltasse à quinta. Quase em seguida, encontraram pegadas de porco na erva, a pouca distância do outeiro. Só podiam ser seguidas durante uns metros, mas pareciam dirigir?se a um buraco na sebe. Napoleão farejou?as profundamente e declarou?as pertencentes a Snowball. Na sua opinião, este viera provavelmente da Quinta Foxwood. Depois de examinar as pegadas, disse: ? Não percamos mais tempo, camaradas! Há trabalho a fazer. Hoje mesmo começamos a reconstrução do moinho e levantá?lo?emos durante o Inverno, quer chova, quer faça sol. Mostraremos a esse miserável traidor que não pode desfazer fácilmente o nosso trabalho. Lembrem?se, camaradas, não pode haver alteração nos nossos planos: eles serão levados até ao fim. Para a frente, camaradas! Viva o moinho de vento! Viva a Quinta dos Animais! |
| Actualizado em Quinta, 05 Maio 2011 16:26 |
CAPITULO VII
Foi um Inverno implacável. Os temporais foram seguidos de granizo e neve, e depois um gelo que não quebrou antes de meados de Fevereiro. Os animais continuavam a reconstruir o moinho o melhor que podiam, bem conscientes de que o mundo exterior os observava e os invejosos seres humanos rejubilariam e triunfariam se ele não fosse terminado dentro do prazo estabelecido. Por puro despeito, os seres humanos fingiam não acreditar que fora Snowball que destruíra o moinho: diziam que ele se desmoronara porque as paredes eram muito finas. Os animais sabiam que não era verdade, mas, mesmo assim, foi decidido fazer desta vez as paredes com um metro de largura, em vez dos cinquenta centímetros de antes, o que implicava recolher quantidades muito maiores de pedra. Durante muito tempo a pedreira esteve cheia de neve e nada se podia fazer. Com o tempo mais seco e frio, foram feitos alguns progressos, mas era um trabalho cruel e os animais não se sentiam tão optimistas como antes. Estavam sempre com frio e, geralmente, com fome também. Só Boxer e Clover nunca perdiam o ânimo. Squealer fazia belos discursos sobre a alegria e dignidade do trabalho, mas os outros animais encontravam mais inspiração na força de Boxer e no seu grito infalível: "Eu trabalharei mais!" Em Janeiro, a comida faltou. A ração de cereais foi reduzida drasticamente e foi anunciado que seria fornecido uma ração extra de batata, para compensar. Então verificou?se que a maior parte da colheita de batata que estava empilhada se tinha queimado com a geada, pois não tinha sido devidamente tapada. As batatas estavam moles e sem cor e só algumas se aproveitavam. Durante dias a fio, os animais não tiveram mais do que palha e beterraba para comer. Pareciam estar a confrontar?se com a fome. Era vital ocultar este facto do mundo exterior. Encorajados pelo desabamento do moinho, os seres humanos inventavam novas mentiras acerca da Quinta dos Animais. Mais uma vez faziam constar que os animais estavam todos a morrer de fome e doenças, que lutavam continuamente uns com os outros e que praticavam o canibalismo e o infanti?cídio. Napoleão estava bem consciente dos maus conhecimento público resultados que adviriam da situação e resolveu servir?se do Sr. Whymper para espalhar a ideia contrária. Até aqui os animais pouco ou nenhum contacto tinham tido com Whymper nas suas visitas semanais: agora, contudo, alguns animais escolhidos, principalmente carneiros, foram instruídos para comentar acidentalmente aos seus ouvidos que as rações tinham sido reforçadas. Além disso, Napoleão ordenou que as arcas onde se guardavam os cereais, agora quase vazias, se enchessem de areia até à bordaque e, por cima, se colocasse o que restava dos grãos e da farinha. Com um pretexto qualquer, Whymper foi levado a visitar o armazém e autorizado a dar uma vista de olhos pelas arcas. Foi, assim, enganado e continuou a contar ao mundo exterior que não havia falta de comida na Quinta dos Animais. Não obstante, lá para o fim de Janeiro tornou?se óbvio que seria necessário arranjar mais cereais em qualquer lado. Nesta altura, Napoleão raramente aparecia em público, passava todo o tempo na casa da quinta, que tinha todas as portas guardadas por ferozes cães. Quando aparecia, fazia?o cerimoniosamente, com uma escolta de seis cães, que o rodeavam, rosnando se alguém se aproximava demasiado. Muitas vezes, nem ao domingo de manhã aparecia, mas enviava as suas ordens por um dos outros porcos, geralmente Squealer. Um domingo de manhã, Squealer anunciou que as galinhas, que tinham acabado de entrar para pôr de novo, deviam entregar os ovos. Napoleão fizera um contrato, por intermédio do Sr. Whymper, através do qual forneceria quatrocentos ovos por semana. O seu valor seria suficiente para pagar os cereais e manter a vida na quinta até à chegada do Verão e de melhores condições. Quando as galinhas ouviram isto, provocaram uma enorme algazarra. Já tinham sido avisadas da possibilidade de ser necessário fazerem esse sacrifício, mas nunca acreditaram que acontecesse realmente. Tinham agora as ninhadas preparadas para chocar na Primavera e protestaram, dizendo que tirar?lhes agora os ovos era um assassínio. Pela primeira vez desde a expulsão de Jones, estava a acontecer algo semelhante a uma revolta. Chefiadas por três jovens frangas Black Minorca, as galinhas fizeram um esforço decidido para contrariar a vontade de Napoleão. O seu plano consistia em esvoaçar até às vigas e pôr os ovos ali, de modo que caíssem ao chão e se partissem. Napoleão actuou rápida e implacavelmente. Mandou cortar as rações às galinhas e decretou que qualquer animal que lhes oferecesse um grão de cereal que fosse seria punido com a morte. Os cães encarregaram?se de fazer cumprir estas ordens. Durante cinco dias as galinhas aguentaram, depois capitularam e voltaram a pôr os ovos nas suas caixas. Durante estes acontecimentos, tinham morrido nove galinhas. Os seus corpos foram sepultados no pomar e constou que tinham morrido de coecideose. Whymper não soube de nada disto; os ovos eram devidamente entregues à camioneta de um merceeiro que vinha até à quinta uma vez por semana, para os levar. Entretanto, nada mais se soubera das quintas vizinhas, Foxwood ou Pinchfield. Napoleão mantinha agora com as outras quintas relações um pouco melhores que antes. No pátio havia uma pilha de madeira que ali se tinha amontoado havia dez anos, depois de se abater um grupo de faias. Estava bem seca e Whymper aconselhara Napoleão a vendê?la; tanto o Sr. Pilkington como o Sr. Frederick estavam ansiosos por comprá?la e Napoleão hesitava entre ambos, incapaz de se decidir. Notou?se que quando parecia estar quase a chegar a acordo com Frederick, constava que Snowball estava escondido em Foxwood e, quando se inclinava para Pilkington, dizia?se que Snowball estava em Pinchfield. Subitamente, no início da Primavera, descobriu?se um facto alarmante. Snowball visitava a quinta frequentemente durante a noite! Os animais ficaram tão perturbados que mal conseguiam dormir nos estábulos. Todas as noites, dizia?se, Snowball vinha rastejando, a coberto da escuridão, e fazia toda a espécie de patifarias: roubava cereais, entornava os baldes do leite, quebrava os ovos, calçava os alfobres, roía as cascas das árvores de fruto. Todo o mal que aparecia feito era atribuído a Snowball. Se umajanela se partia ou um esgoto se entupia, era certo alguém dizer que Snowball tinha vindo de noite e tinha feito aquilo; e, quando se perdeu a chave do armazém, toda a quinta se convenceu de que Snowball a tinha atirado para o poço. O mais curioso é que continuaram a acreditar nisto, mesmo depois de a chave perdida ter sido encontrada debaixo de um saco de farinha. Unanimemente, as vacas afirmaram que Snowball entrava nos estábulos e as mungia de noite, enquanto dormiam. Também se dizia que os ratos, que tinham feito muitos estragos nesse Inverno, estavam de combinação com Snwball. Napoleão ordenou que se procedesse a um rigoroso inquérito às actividades de Snowball. Com os seus cães de serviço fez um cuidadoso giro de inspecção pelos edificios da quinta, seguido a respeitosa distância pelos outros animais. De vez em quando, Napoleão parava e farejava o chão, procurando marcas dos pés de Snowball que, dizia ele, conseguia detectar pelo olfacto. Farejava em todos os cantos, no celeiros no estábulo das vacas, nas capoeiras, na horta, e encontrava vestígios da presença de Snowball em quase toda a parte. Encostava a tromba ao chão, aspirava profundamente várias vezes e exclamava, com uma voz terrível: Snowball Esteve aqui. Sinto?lhe o cheiro distintamente. à palavra "Snowball" todos os cães rosnavam aterradoramente e mostravam os caninos. Os animais estavam muito assustados. Parecia que Snowball era uma espécie de intimidação invisível, impregnada no ar que respiravam e os tipos de perigos. Uma ameaçando?os com todos s a todos para lhes dizer, noite, Squealer reuniu?o com uma expressão alarmante, que tinha uma notícia grave para comunicar. Dando pequenos saltos nervosos, gritou: Camaradas. Foi feita uma descoberta terrivel. a Quinta e Snowball vendeu?se a Frederick, de s e tirar Pinclifield, que está a planear atacar?no ?nos a nossa quinta! Snowball actuará como seu guia quando o ataque se realizar. Mas há ainda pior que isso. Nós pensávamos que a revolta de Snowball tinha sido motivada pela sua vaidade e ambição. Mas estávamos enganados, camaradas. Sabem qual era a verdadeira razão? Snowball estava ligado a Jones desde o início! Desde sempre foi agente de Jones. Tudo isto se provou através de um documentos que ele deixou cá ficar e que nós acabámos de encontrar. Para mim, isto explica muita coisa, camaradas. Não vimos como ele tentou... felizmente sem sucesso... levar?nos à derrota e destruição na Batalha do Estábulo? Os animais ficaram estupefactos. Isto era malvadez que ultrapassava de longe o que Snowball fizera ao moinho, mas os animais demoraram alguns minutos a aceitar completamente a ideia. Todos se lembravam, ou pensavam lembrar?se, do modo como Snowball atacara à frente deles na Batalha do Estábulo, como os reagrupara e encorajara a cada carga e como se batera sem parar um instante, mesmo quando os chumbos da espingarda de Jones o feriram nas costas. A princípio, foi um pouco difícil conjugar isto com a ideia de que ele estava do lado de Jones. Até Boxer, que raramente fazia perguntas, ficou intrigado. Deitou?se, escondeu as patas da frente sob o corpo, fechou os olhos e, com grande esforço, conseguiu formular as suas dúvidas. Eu não acredito nisso ? disse ele. ? Snowball lutou com bravura na Batalha do Estábulo. Eu vi?o! Não lhe demos, logo a seguir, a medalha "Animal Heróico de Primeira Classe"? ? Esse foi o nosso erro, camarada. Porque agora sabemos... está tudo escrito nos documentos secretos que encontrámos... que, na verdade, tentava atrair?nos para a nossa ruína. ? Mas ele foi ferido ? replicou Boxer. ? Todos nós o vimos a escorrer sangue. ? Isso fazia parte da conspiração! gritou Squealer. ? O tiro de Jones apenas lhe roçou pela pele. Eu podia mostrar?vos isso, escrito por ele, se vocês fossem capazes de ler. O plano era, no momento crítico, Snowball dar o sinal para fugirmos e abandonarmos o campo ao inimigo. quase o conseguiu... digo mais, camaradas, tê?lo?ia conseguido se não fosse o nosso heróico chefe, o camarada Napoleão. Não se lembram que, no momento em que Jones e os seus homens entraram no pátio Snowball virou?se e fugiu logo, seguido de alguns animais? E não se lembram, também, que foi no preciso momento em que o pânico se estabelecia que o camarada Napoleão tudo parecia perdido "Morte àHumanidade" e ferrou avançou, gritando: os dentes na perna de Jones? Certamente lembram?se disso, camaradas! ? Squealer continuava a balançar?se de um lado para o outro. Agora que ele descrevia a cena de modo tão vivo, parecia que os animais se lembravam. De qualquer maneira, no momento mais crítico da batalha, recordavam que, Snowball tinha fugido. Mas Boxer ainda estava um pouco apreensivo. Não acredito que Snowball fosse um traidor desde o princípio ? disse finalmente. ? O que fez depois é diferente. Mas estou convicto de que, na Batalha do Estábulo, foi um bom camarada. ? O nosso chefe, o camarada Napoleão ? declarou Squealer, falando pausada e firmemente afirmou categoricamente... categoricamente, camarada... que Snowball era agente de Jones desde o princípio e muito antes de se pensar na Revolta. Ali, isso é outra coisa! ? disse Boxer. ? Se o camarada Napoleão o diz, é porque é verdade. ? Esse é que é o verdadeiro espírito, camarada! gritou Squealer, mas notou?se que deitou um olhar muito desagradável a Boxer, com os seus olhinhos brilhantes. Virou?se para sair, fez uma pausa e depois acrescentou com firmeza: Aconselho todos os animais desta quinta a manterem os olhos bem abertos, pois temos razões para pensar que há agentes secretos de Snowball ocultos entre nós neste momento! Quatro dias mais tarde, à tardinha, Napoleão convocou todos os animais para uma reunião no pátio. Quando estavam todos reunidos, Napoleão apareceu, vindo da casa grande, ostentando as suas duas medalhas (tinha?se condecorado a si mesmo recentemente) de "Animal Heróico de Primeira Classe" e de "Animal Heróico de Segunda Classe" e com os nove cães enormes saltando à sua volta e rosnando de modo a provocar arrepios na espinha de todos os animais. Ajeitaram?se todos nos seus lugares, em silêncio, parecendo adivinhar que algo de terrível estava para acontecer. Napoleão permaneceu de pé, examinando a assistência; depois, soltou um grito num tom muito elevado. Imediatamente os cães avançaram, agarraram quatro porcos pela orelha e arrastaram?nos, guinchando de dor e medo, até aos pés de Napoleão. As orelhas dos porcos sangravam e os cães, tendo provado o sangue, pareciam ter ficado completamente loucos por uns momentos. Para espanto de todos, três deles dirigiram?se a Boxer. Este viu?os aproximarem?se e levantou o enorme casco, apanhando um cão no ar e imobilizando?o no chão. O cão gritou por clemência e os outros dois fugiram, com o rabo entre as pernas. Boxer olhou para Napoleão, para saber se devia esmagar o cão ou deixá?lo ir?se embora. Napoleão pareceu mudar de semblante e ordenou rispidamente a Boxer que largasse o cão, pelo que este levantou O casco e o cão escapou, ferido e a uivar. O tumulto cessou imediatamente. os quatro porcos esperavam, tremendo, com a culpa escrita em todas as linhas dos seus semblantes. Napoleão fê?los confessar os seus crimes. Estes eram os tais quatro porcos que tinham protestado quando Napoleão abolira as Assembleias aos domingos. Sem ser preciso perguntar?lhes nada, confessaram ter estado em contacto secreto com Snowball desde a sua expulsão, ter colaborado com ele na destruição do moinho e ter entrado num acordo com ele para entregar a Quinta dos Animais ao Sr. Frederick. Acrescentaram que Snowball admitira ter sido agente secreto de Jones ao longo dos últimos anos. Assim que acabaram a confissão, OS cães cortaram?lhes as gargantas e Napoleão, com uma voz medonha, perguntou se mais algum animal tinha algo para confessar. As três galinhas que tinham chefiado a tentativa de revolta por causa dos ovos avançaram e declararam que Snowball lhes aparecera num sonho e as incitara a desobedecer às ordens de Napoleão ? Também foram logo mortas. Depois apresentou?se um ganso e confessou ter escondido seis espigas de trigo durante a colheita do ano anterior e tê?las comido de noite. A seguir, uma ovelha confessou haver urinado no bebedouro ? instigado a isso por Snowball ? e dois outros carneiros confessaram ter morto um velho carneiro, um adepto especialmente fervoroso de Napoleão, perseguindo?o à roda de uma fogueira, quando ele sofria de bronquite. Foram todos mortos logo ali. E, assim, a série de confissões e execuções continuou, até que se formou uma pilha de cadáveres aos pés de Napoleão e o ar ficou denso com o cheiro a sangue, odor desconhecido desde a expulsão de Jones. Quando tudo acabou, os animais que sobraram, excepção feita para os porcos e cães, retiraram?se em bloco, trémulos e deprimidos. Não sabiam o que era mais chocante, se a traição dos animais que se tinham ligado a Snowball, se o cruel castigo a que acabavam de assistir. Nos velhos tempos houvera com frequência derramamentos de sangue igualmente terríveis, mas este era muito pior, segundo lhes parecia, porque acontecera entre animais. Desde que Jones deixara a quinta, até agora, nenhum animal matara outro, nem mesmo um rato. Foram até ao pequeno outeiro onde estava o moinho inacabado e deitaram?se todos, muito juntos, como que procurando calor Clover, Muriel, Benjamin, as vacas, os carneiros e um bando de gansos e galinhas ? todos, em suma, menos o gato, que desaparecera subitamente antes de Napoleão ordenar a reunião. Durante algum tempo ninguém falou. Só Boxer permanecia de pé. Mostrava?se inquieto, andando para a frente e para trás, agitando a sua longa cauda preta de um lado para o outro e soltando um pequno relincho de surpresa de vez em quando. Finalmente, disse: ? Não compreendo. Nunca pensei que coisas destas pudessem acontecer na nossa quinta. Deve ser algum erro nosso. A solução, a meu ver, é trabalhar mais. A partir de agora levantar?me?ei todas as manhãs uma hora mais cedo. E afastou?se) num trote pesado, na direcção da pedreira. Ao chegar lá, reuniu dois carregamentos sucessivos de pedra e levou?os para o moinho, antes de se recolher para dormir. Os animais amontoavam?se em torno de Clover, sem falar. O monte onde se encontravam proporcionava?lhes um amplo panorama da região. Podiam ver quase toda a quinta _ o longo campo de pastagem estendendo?se até à estrada, o campo de feno, o bosque, o bebedouro, os campos lavrados com o trigo novo e verde e os telhados vermelhos dos edificios da quinta, com o fumo saindo em espiral das chaminés. Era um luminoso fim de tarde primaveril. A erva e as sebes floridas estavam douradas pelos baixos raios de sol. Nunca a quinta parecera aos animais tão desejável. e, com uma certa surpresa lembraram?se de que era sua, cada centímetro dela era sua propriedade. Ao olhar para a encosta, Clover ficou com os olhos cheios de lágrimas. Se ela pudesse exprimir os seus pensamentos, teria dito que não era isto que eles tinham ambicionado quando se lançaram ao trabalho, alguns anos antes, para destronar a raça humana. O que tinham desejado naquela primeira noite em que Major os incitara à revolta não eram estas cenas de terror e carnificina. Se ela tivesse podido visionar o futuro, teria idealizado uma sociedade de animais livres da fome e do chicote, todos iguais, cada um trabalhando segundo a sua capacidade, os fortes protegendo os fracos, como ela protegera com a pata a última ninhada de patinhos, na noite do discurso de Major. Em vez disso ? e ela não sabia porquê ? tinham chegado a um ponto em que ninguém se atrevia a dizer o que pensava, com cães ferozes e ameaçadores deambulando por todo o lado e sendo obrigados a ver os seus camaradas feitos em pedaços, depois de confessarem crimes chocantes. Não lhe passava pela cabeça revoltar?se ou desobedecer. Ela sabia que, mesmo assim, estavam muito melhor do que no tempo dos seres humanos. Acontecesse o que acontecesse, manter?se?ia fiel, trabalharia muito, cumpriria as ordens que lhe fossem dadas e aceitaria a chefia de Napoleão. Mas não era para isto que se tinham esforçado tanto. Não fora para isto que tinham construido o moinho e enfrentado as balas da espingarda de Jones. Tais eram os seus pensamentos, embora lhe faltassem as palavras para os exprimir. Por fim, sentindo ter encontrado uma maneira de substituir as palavras que não encontrava, começou a cantar Animais da Inglaterra. Os outros animais, sentados à sua volta, associaram?se a ela e cantaram o hino três vezes ? muito afinadamente, mas devagar e com melancolia, como nunca antes tinham feito. Tinham acabado de cantar pela terceira vez quando Squealer, escoltado por dois cães, se aproximou com ar de quem tinha algo importante a dizer. Anunciou que, por decreto especial do camarada Napoleão, o hino Animais da Inglaterra fora abolido. De agora em diante, era proibido cantá?lo. Os animais ficaram espantados. ? Porquê? ? gritou Muriel. ? Já não é necessário, camarada ? disse Squealer severamente. ? Animais da Inglaterra era o hino da Revolta. Mas a Revolta terminou. E a execução dos traidores esta tarde foi o último acto. O inimigo externo e interno foi derrotado. Na canção Animais da Inglaterra expressávamos O nosso desejo de uma sociedade melhor nos dias futuros. Mas essa sociedade já está implantada. Portanto, a canção já não tem razão de ser. Embora assustados, alguns dos animais provavelmente teriam protestado, mas, nesse momento, os carneiros iniciaram o seu habitual "Quatro pernas bom, duas pernas mau", que se prolongou por vários minutos e pôs fim à discussão. Assim, o hino Animais da Inglaterra nunca mais se ouviu. Para o substituir, o poeta Minimus compusera outra canção, que começava assim: Quinta dos Animais, Quinta dos Animais, Eu nunca te farei mal E esta canção passou a ser cantada todos os domingos de manhã, depois de içada a bandeira. Mas, aos animais que dequalquer maneira, pareceu nem na música nem na letra era melhor que Animais da Inglaterra. |
| Actualizado em Quinta, 05 Maio 2011 16:26 |
CAPITULO VIII
Poucos dias depois, quando se dissipou o terror causado pelas execuções, alguns dos animais recordaram?se ? ou pensaram recordar?se ? de que o Sexto Mandamento dizia: "Nenhum animal matará outro animal". E, embora ninguém o tivesse mencionado no interrogatório dos porcos, sentiam que estas mortes não estavam de acordo com isso. Clover pediu a Benjamin que lhe lesse o Sexto Mandamento e quando ele, como de costume, disse que não queria misturar?se nessas questões, chamou Muriel. Esta leu?lhe o Mandamento: "Nenhum animal matará outro animal sem motivo". Sem que soubessem porquê, as duas últimas palavras não estavam na memória dos animais. Mas agora viam que o mandamento não fora violado, pos havia certamente bons motivos para matar os traidores que se tinham unido a Snowball. Durante esse ano os animais trabalharam ainda mais arduamente que no ano anterior. Reconstruir o moinho com paredes duas vezes mais espessas do que antes e acabá?lo na data fixada, juntamente com todo o trabalho da quinta, era um tremendo esforço. Houve alturas em que lhes pareceu que trabalhavam mais horas e não se alimentavam melhor que no tempo de Jones. Aos domingos de manhã, Squealer, segurando com o pé uma longa tira de papel, lia?lhes grandes listas de números que provavam que a produção de cada classe de alimentos aumentara 200, 300, ou até 500 por cento, conforme caso. Os animais não viam razões para duvidar dele, tanto mais que já não se lembravam com clareza das condições de produção antes da Revolta. De qualquer forma, havia alturas em que prefeririam ter menos números e mais comida. Todas as ordens eram agora transmitidas por intermédio de Squealer ou um dos outros porcos. Napoleão só era visto em público uma vez de quinze em quinze dias. Quando aparecia, era escoltado não apenas pelo seu séquito de cães, mas também por um gatinho preto, que marchava à frente, como uma espécie de pregoeiro, e fazia có?có?ró?có antes de Napoleão falar. Na casa, dizia?se, Napoleão habitava aposentos separados dos dos outros porcos. Fazia as refeições sozinho, guardado por dois cães e comia no serviço de jantar Crown Derby que estava no guarda?loiça da sala. Foi também anunciado que a espingarda dispararia sempre uma salva no aniversário de Napoleão, tal como nas duas outras datas. Napoleão, agora, nunca era tratado simplesmente pelo seu nome. Era sempre mencionado, em tom formal, como "Nosso Chefe, Camarada Napoleão" e os porcos gostavam de inventar para ele títulos como "Pai de Todos os Animais", "Terror da Humanidade", "Protector do Redil", "Amigo dos Patinhos", etc. Nos seus discursos, Squealer, com as lágrimas rolando?lhe pela cara, falava da sabedoria de Napoleão, da bondade do seu coração e do profundo amor que dedicava a todos os animais, especialmente os infelizes que ainda viviam na ignorância e escravidão nas outras quintas. Tinha?se tornado habitual atribuir a Napoleão os louros por todos os empreendimentos bem sucedidos e golpes de sorte. Era frequente ouvir?se uma galinha comentar para outra: Sob a orientação do nosso chefe, o camarada Napoleão, pus cinco ovos em seis dias. Ou duas vacas, bebendo no tanque: ? Graças à chefia do camarada Napoleão, que belo gosto tem esta água! O sentimento geral na quinta estava bem expresso num poema intitulado "Camarada Napoleão", composto por Minimus e que dizia o seguinte: Amigo dos órfãos! Fonte de felicidade! Senhor dos baldes de lavagem! Oh, como a [minhaalma Arde quando contemplo Os teus olhos calmos e dominadores, Como o sol no céu, Camarada Napoleão! Tu és o donatário de Tudo o que as tuas criaturas amam, Barriga cheia duas vezes por dia e palha [limpa para rebolar; Cada animal, grande ou pequeno Dorme em paz no seu estábulo, 85 GEORGE ORWELL Tu zelas por tudo, Camarada Napoleão! Se eu tivesse um leitãozinho Antes que se tornasse grande Fosse ele magrinho ou gordo Aprenderia a ser Verdadeiro e fiel a ti, Sim, o seu primeiro grito seria "Camarada Napoleão!" Napoleão aprovou este poema e mandou escrevê?lo na parede do celeiro grande oposta à que tinha os Sete Mandamentos. Era encimado por um, retrato seu, de perfil, executado por Squealer a tinta branca. Entretanto, por intermédio de Whymper, Napoleão estava envolvido em complicadas negociações com Frederick e Pilkington. A pilha de madeira ainda não fora vendida. Dos dois, Frederick era o mais ansioso por adquiri?la, mas não oferecia um preço razoável. Ao mesmo tempo, circulavam rumores de que Frederick e os seus homens planeavam atacar a Quinta dos Animais e destruir o moinho, cuja construção lhe provocara grande inveja. Snowball, dizia?se, ainda estava escondido na Quinta Pinclifield. A meio do Verão, os animais ficaram alarmados ao ouvir dizer que três galinhas se tinham apresentado, confessando que, inspiradas por Snowball, tinham feito um conjuro para matar Napoleão. Foram imediatamente executadas e tomaram?se novas precauções para garantir a segurança de Napoleão. De noite, quatro cães guardavam a sua cama, um a cada canto, e um leitão chamado Pinkeye foi encarregue de provar toda a sua comida antes de lhe ser servida, não estivesse envenenada. Por esta altura foi anunciado que Napoleão chegara a acordo com o Sr. Pilkington para a venda da pilha de madeira; ia também entrar em negociações regulares para a troca de certos produtos entre a Quinta dos Animais e Foxwood. As relações entre Napoleão e Pilkington, embora conduzidos apenas por intermédio de Whymper, eram quase amigáveis. Os animais não confiavam em Pilkington, como ser humano que era, mas preferiam?no de longe a Frederick, que temiam e odiavam. à medida que o Verão avançava e a construção do moinho se aproximava do fim, os boatos de um iminente ataque traiçoeiro cresciam cada vez mais. Frederick, dizia?se, tencionava trazer vinte homens, todos com armas de fogo, e tinha já subornado os juízes e a polícia para não fazerem perguntas se ele conseguisse apoderar?se dos títulos de propriedade da Quinta dos Animais. Além disso, constavam histórias terríveis sobre Pinclifield e o modo como Frederick tratava os seus animais. Açoitava um velho cavalo até à morte, as vacas morriam à fome, matara um cão atirando?o para dentro da fornalha, divertia?se à noite fazendo os galos combaterem com bocados de lâminas de barbear amarradas aos esporões. O sangue dos animais fervia de raiva quando ouviam contar as coisas que eram feitas aos seus camaradas e, às vezes, clamavam por autorização para ir em bloco atacar a Quinta Pinclifield, expulsar os humanos e libertar os animais. Mas Squealer aconselhava?os a evitar acções precipitadas e a confiar na estratégia do camarada Napoleão. No entanto, os sentimentos hostis a Frederick continuavam a crescer. Um domingo de manhã Napoleão apareceu no celeiro e explicou que nunca tivera a intenção de vender a madeira a Frederick; considerava abaixo da sua dignidade, disse ele, negociar com tal patife. Os pombos, que continuavam a ser enviados para espalhar as notícias sobre a Revolta, foram proibidos de pousar em qualquer ponto de Foxwood e foi?lhes ordenado que trocassem o anterior slogan «Morte à Humanidade» por «Morte a Frederick». No fim do Verão foi revelada mais uma das maquinações de Snowball. A colheita de trigo estava cheia de joio e descobriu numa das suas visitas nocturnas, que Snowball misturara sementes dessa planta com as de trigo. Um ganso que fora cúmplice do conjuro confessou?o a Squealer e, logo de seguida, suicidou??se, engolindo bagas de beladona. Nesta altura os animais tomaram conhecimento de que Snowball ao contrário do que muitos pensavam ? nunca recebera a medalha «Aninial Heróico de Primeira Classe». Fora apenas uma fantasia espalhada algum tempo depois da Batalha do Estábulo pelo próprio Snowball. Não só estivera longe de ser condecorado, como até tinha sido repreendido por ter demonstrado cobardia durante a batalha. Mais uma vez os animais se mostraram um pouco desnorteados, mas Squealer conseguiu rapidamente convencê?los de que a memória lhes falhara. No Outono, após um esforço tremendo, esgotante ? pois a colheita tivera de ser feita quase ao mesmo tempo ?, a construção do moinho terminou. O maquinismo ainda tinha de ser instalado e Whymper andadava a negociar a sua aquisição, mas a estrutura estava completa. A despeito de todas as dificuldades, apesar da inexperiência, dos instrumentos rudimentares, da falta de sorte e da traição de SnowbalI, o trabalho tinha sido terminado pontualmente, no dia previsto! Exaustos, mas orgulhosos, os animais passeavam em redor da sua obra de arte, que agora lhes parecia ainda mais bela que quando fora construída da primeira vez. Além disso, as paredes tinham o dobro da espessura. Desta vez, só com explosivos as conseguiriam deitar abaixo! E, quando pensaram no que tinham trabalhado, nos desencorajamentos que tinham superado e na enorme modificação que se operaria nas suas vidas quando as velas andassem à roda e os dínamos se movessem, quando pensaram em tudo isto, o cansaço abandonou ?os e pularam à volta do moinho, dando gritos de triunfo. O próprio Napoleão, escoltado pelos cães e pelo seu galito, veio inspeccionar o trabalho terminado; cumprimentou pessoalmente os animais pela sua proeza e anunciou que o moinho se chamaria Moinho Napoleão. Dois dias depois, os animais foram reunidos para uma Assembleia especial no celeiro. Ficaram mudos de espanto quando Napoleão anunciou que tinha vendido a pilha de madeira a Frederick. No dia seguinte viriam as carroças de Frederick para começar a carregá?la. Durante todo o período da sua suposta amizade com Pilkington, Napoleão estivera, na verdade, em negociações secretas com Frederick. Todas as relações com Foxwood haviam cessado. Mensagens insultuosas tinham sido enviadas a Pilkington. Os pombos foram avisados de que deviam evitar a Quinta Pinclifield e mudar o slogan de «Morte a Frederick» para «Morte a Pilkington». Ao mesmo tempo, Napoleão garantiu aos animais que os boatos sobre o iminente ataque à Quinta dos Animais não tinha nenhum fundamento e as histófias sobre a crueldade de Frederick tinham sido muito exageradas. Todos estes rumores deviam ter sido originados por Snowball e pelos seus agentes. Parecia agora que, afinal, Snowball não se escondera na Quinta Pinclifield e, na realidade, nunca na suavidajá fora; vivia, sim ?e comuniluxo considerável, dizia?se ?, em Foxwood, sendo, de facto, ali pensionista há anos. Os porcos ficaram extasiados com a astúcia de Napoleão. Aparentando ser amigo de Pilkington, forçara Frederick a subir doze libras o seu preço. Mas a superioridade da inteligência de Napoleão, dizia Squealer, era demonstrada pelo facto de não confiar em ninguém, nem mesmo em Frederick. Este quisera pagar a madeira com uma coisa chamada «cheque», que, parecia, era um bocado de papel com uma promessa de pagamento escrita. Mas Napoleão era demasiado esperto para ele e exigia o pagamento em notas de cinco libras, que seriam entregues antes de a madeira ser levada. Frederick pagara logo e essa quantia era precisamente a que precisava para comprar a maquinaria para o moinho. Entretanto, a madeira estava a ser carregada a grande velocidade. Logo que saiu toda, teve lugar outra reunião extraordinária no celeiro, para os animais inspeccionarem as notas de Frederick. Sorrindo beatificamente e ostentando ambas as condecorações, Napoleão repousava numa cama de palha, na plataforma, com o dinheiro ao lado, cuidadosamente empilhado num prato de porcelana da cozinha da casa grande. Os animais desfilaram lentamente, contemplando à vontade. Boxer esticou o focinho para cheirar as notas do banco, fazendo com que os frágeis bocados de papel esbranquiçado se agitassem e fizessem ruge?ruge sob a sua respiração. Três dias mais tarde, houve uma enorme algazarra. Whymper, pálido de morte, chegou apressado numa bicicleta que largou no pátio e precipitou?se na direcção da casa. Momentos depois, ouviu?se um sufocante urro de raiva, vindo dos aposentos de Napoleão. A notícia do sucedido espalhou?se pela quinta como um relâmpago. As notas do banco eram falsas! Frederick recebera a madeira de graça! Napoleão reuniu imediatamente os animais e, com voz medonha, proferiu a sentança de morte de Frederick. Quando fosse capturado, disse, Frederick seria metido vivo em água a ferver. Ao mesmo tempo, avisou?os de que, depois deste acto traiçoeiro, era de se esperar o pior. Frederick e os seus homens poderiam, a qualquer momento, desencadear o ataque há tanto tempo esperado. Foram colocadas sentinelas em todos os acessos à quinta. Além disso, foram enviados quatro pombos a Foxwood, com uma mensagem conciliatória que se esperava pudesse restabelecer as boas relações com Pilkington. Logo na manhã,seguinte deu?se o ataque. Os animais estavam a tomar o pequeno?almoço quando os vigias vieram a correr, com a notícia de que Frederick e os seus homens já tinham atravessado o portão de grades. Com considerável audácia os animais saíram logo ao seu encontro, mas desta vez não tiveram a vitória fácil que tinham tido na Batalha do Estábulo. Havia quinze homens, com meia dúzia de armas entre todos, e abriram fogo a cerca de cinquenta metros. Os animais não puderam enfrentar as terríveis explosões e as balas que queimavam e, apesar dos esforços de Napoleão e Boxer para os reagrupar, foram logo obrigados a recuar, alguns já feridos. Refugiaram?se nos edifícios da quinta e ficaram à espreita, cautelosamente, através das fendas e dos buracos na madeira. Todo o campo de pastagem, incluindo o moinho, estava nas mãos do inimigo. De momento, até Napoleão parecia atrapalhado. Andava de um lado para o outro sem falar, com a cauda a enrolar e desenrolar. Deitavam?se olhares ansiosos na direcção de Foxwood. ge Pilkington e os seus homens os ajudassem, ainda poderiam ganhar o dia. Mas, nesse momento, os quatro pombos que tinham sido enviados na véspera regressaram, um deles com um pedaço de papel, a resposta de Pilkington. Nele estavam escritas as palavras: «É bem feito!» Entretanto, Frederick e os seus homens tinham parado ao pé do moinho. Os animais observavam ?nos e um murmúrio de desalento percorreu?os. Dois dos homens tinham arranjado um pé?de?cabra e um martelo de forja. Iam deitar abaixo o moinho! ? Impossível! ? gritou Napoleão. ? Nós construimos as paredes grossas de mais para aquilo. Nemnuma semana conseguiriam derrubá?lo. Coragem, ca maradas! Mas Benjamin observava atentamente os movimentos dos homens. Os dois que traziam o martelo e o pé?de?cabra estavam a fazer um buraco na base do moinho. Devagar e com um ar quase divertido, Benjamin acenou o longo focinho. Era o que eu pensava ? disse. ? Não vêem o que eles estão a fazer? Daqui a momentos vão por pólvora naquele buraco. Aterrorizados, os animais esperavam. Era impossível aventurarem?se agora a sair da protecção dos edifícios. Minutos depois, viram os homens correndo em todas as direcções. Depois, ouviu?se um ruído ensurdecedor. Os pombos rodopiaram no ar e todos oa animais, excepto Napoleão, se atiraram para o chão, de bari ?iga para baixo, e esconderam as caras. Quando se levantaram, uma enorme nuvem negra cobria o local onde estivera o moinho. Lentamente, a brisa foi desfazendo a nuvem. O moinho já não existia! A vista disto, a coragem dos animais voltou. O medo e desespero que tinham sentido momentos antes foram abafados pela raiva contra este acto perverso e desprezível. Um enorme grito de vingança elevou?se no ar e, sem esperarem por novas ordens, investiram em bloco contra o inimigo. Desta vez não fizeram caso das balas implacáveis que choviam sobre eles como granizo. Era uma batalha selvagem e cruel. Os homens dispararam muitas vezes e, quando os animais se aproximaram, atacaram?nos com paus e com as suas pesadas botas. Uma vaca, três carneiros e dois gansos foram mortos e quase todos os outros ficaram feridos. Até Napoleão, que dirigia as operações da retaguarda, ficou com a ponta da cauda lascada por uma bala. Masoshomenstambémnão saíramilesos.Trêsdeles tinham as cabeças partidas pelos cascos de Boxer; outro tinha a barriga ferida pelo corno de uma vaca; outro tinha as calças todas rasgadas, obra de Jessie e Bluebel1. E quando os nove cães da guarda pessoal de Napoleão, que tinham recebido instruções para ir dar a volta a coberto da sebe, apareceram subitamente pelo flanco dos homens, ladrando ferozmente, o pânico dominou?os, pois viram que corriam o perigo de serem cercados. Frederick gritou aos seus homens que fugissem enquanto a saída ainda era possível e, momentos depois, o cobarde inimigo corria para salvar a vida. Os animais perseguiram?nos mesmo até ao fundo do prado, conseguindo ainda pregar?lhes uns coices quando tentavam atravessar a sebe de espinheiros. Tinhamvencido, mas estavam abatidos e ensanguentados. Lentamente, iniciaram a caminhada em sentido inverso, coxeando. A visão dos camaradas mortos, estendidos na erva, fez chegar as lágrimas aos olhos de alguns. E, por um momento, pararam em doloroso silêncio no lugar onde tinha existido o moinho. Sim, fora?se; todo o seu trabalho se perdera! Até os alicerces estavam parcialmente destruidos. E, para o reconstruir, desta vez não poderiam, como antes, utilizar as pedras caídas. Desta vez as pedras também tinham desaparecido. A força da explosão lançara?a s a distâncias de centenas de metros. Era como se o moinho nunca tivesse existido. Qua ndo se aproximaram da quinta, Squealer, que, inexplicavelmente, estivera ausente da luta, veio aos saltos ter com eles, abanando a cauda e sorrindo de satisfação. Os animais ouviram, vindo da direcção das casas, o solene salvar de uma espingarda. ?Porque é que a espingarda está a disparar? perguntou Boxer. ?Para celebraranossavitória! –gritouSquealer. Qual vitória? ? inquiriu Boxer. Os seus joelhos sangravam, perdera uma ferradura e rachado o casco e tinha uma dúzia de grãos de chumbo alojados numa das pernas traseiras. Qual vitória, camarada? Então não expulsámos o inimigo do nosso solo... o solo sagrado da Quinta dos Animais? Mas eles destruíram o moinho. E nós trabalhámos nele durante dois anos! Que interessa isso? Nós construiremos outro moinho. Se quisermos, podemos construir seis moinhos, camarada; não estás a dar valor ao nosso grandioso feito. O inimigo tinha ocupado este terreno onde nos encontramos. E agora, graças à chefia do camarada Napoleão, reconquistámos cada centímetro dele! ? Então reconquistámos o que já era nosso disse Boxer. É essa a nossa vitória ? Concluiu Squealer. Arrastaram?se, coxeando, até ao pátio. Os chumbos, na perna de Boxer, cauÉavam?lhe dores agudas. Antevia à sua frente a pesada tarefa de reconstruir o moinho desde os alicerces e já se imaginava a empreender esse trabalho. Mas, pela primeira vez, ocorreu?lhe que tinha 11 anos e que talvez os seus grandes músculos já não tivessem a força de antigamente. Mas quando os animais viram a bandeira verde esvoaçando, ouviram a espingarda disparando outra vez ? ao todo foram sete salvas ? e escutaram o discurso de Napoleão felicitando?os pela sua conduta, convenceram?se de que, afinal, tinham obtido uma grande vitória. Os animais mortos na batalha tiveram um funeral solene. Boxer e Clover puxaram a carroça que fez de carro fúnebre e o próprio Napoleão liderou o cortejo. As celebrações duraram dois dias inteiros. Houve canções, discursos, mais salvas e um presente especial de uma maçã para cada animal, mais duas onças de milho para cada pássaro e três biscoitos para cada cão. Foi anunciado que a batalha se chamaria Batalha do Moinho e que Napoleão criara uma nova condecoração, a «Ordem da Bandeira Verde», que logo conferiu a si mesmo. No meio das comemorações, o desagradável caso das notas falsas foi esquecido. Foi uns dias depois disto que os porcos encontraram por acaso uma caixa de uísque nas'caves da quinta. Não tinham dado por ela quando a casa fora ocupada. Nessa noite ouviu?se, vindo da casa, o som de uma grande cantoria e, para surpresa de todos, misturados aos acordes de outras cançoes, podiam ouvir?se também os de Animais da Inglaterra. Por volta das nove e meia, Napoleão, usando um velho chapéu de coco do Sr. Jones, foi visto distintamente a sair pela porta das traseiras, galopando rapidamente à volta do pátio e entrando de novo. Mas de manhã um profundo silêncio envolvia a casa. Não havia qualquer espécie de movimento por parte dos porcos. Eram quase nove horas quando Squealer fez a sua aparição, andando lentamente e com um ar abatido, os olhos embaciados, a cauda molemente caída e com toda a aparência de estar seriamente doente. Reuniu os animais e disse?lhes que tinha uma notícia terrível para lhes comunicar: o camarada Napoleão estava a morrer! Ecoou um grito de desespero. Bocados de palha foram colocados defronte das portas da casa grande e os animais andav,,,m em bicos de pés. Com lágrimas nos olhos perguntavam uns aos outros o que fariam se o seu chefe lhes faltasse. Corria o rumor de que Snowball, afinal, conseguira introduzir veneno na comida de Napoleão. As onze horas, Squealer apareceu com outra notícia: como seu último acto na terra, o camarada Napoleão decretara que beber álcool seria punido com a pena de morte. A tarde, contudo,.?Vapoleão pareceu melhorar e, na manhã seguinte, Squealer pôde comunicar?lhes que se encontrava em franca recuperação. Nessa mesma noite, Napoleão voltou ao trabalho e no dia seguinte soube?se que instruíra Whymper no sentido de adquirir alguns livros sobre fabricação de cerveja e destilação. Uma semana mais tarde, Napoleão ordenou que o pequeno cercado atrás do pomar, que fora reservado para terreno de pasto dos animais que já não podiam trabalhar, fosse lavrado. Deu como razão que era preciso semear erva nova, porque o pasto estava seco; mas, ao fim de pouco tempo, soube?se que Napoleão tencionava semear cevada. Por essa altura, sucedeu um estranho incidente que quase ninguém compreendeu. Uma noite, por volta das vinte e quatro horas, ouviu?se um grande estrondo no pátio e os animais saíram à pressa dos estábulos. Era uma noite de Lua cheia. Junto da parede do celeiro grande, onde estavam escritos os Sete Mandamentos, estava uma escada partida em doisbocados. Squealer, momentaneamente atordoado, estava estatelado ao seu lado; junto estava uma lanterna, um pincel e uma lata de tinta branca entornada. Os cães imediatamente fizeram um círculo em volta de Squealer e escoltaram?no até à casa mal ele pôde andar. Nenhum dos animais foi capaz de fazer uma ideia do que aquilo significava, excepto o velho Benjamin, que acenou com o focinho com um ar entendido e pareceu compreender, mas não disse nada. No entanto, uns dias mais tarde, Muriel, lendo para si mesma os Sete Mandamentos, notou que havia ainda outro de que não se lembrava bem. Tinha ideia de que o Quinto Mandamento era «Nenhum animal beberá álcool», mas tinha?se esquecido de duas palavras. Na verdade, o Mandamento dizia: «Nenhum animal beberá álcool em excesso». |
| Actualizado em Quinta, 05 Maio 2011 16:27 |
CAPITULO IX
O ferimento que Boxer tinha na pata demorou muito tempo a sarar. Quando terminaram as comemorações da vitória, começou a reconstrução do moinho. Boxer recusou se a ter um único dia de répouso e tomou como ponto de honra não deixar que os outros percebessem que sopita. A noite, em particular com Clover, admitia que o casco o incomodavã bastante. Clover tratava o com cataplasmas de ervas mastigados por ela própria e tanto ela como Benjamin o aconselhavam a trabalhar menos. |
| Actualizado em Quinta, 05 Maio 2011 16:20 |
CAPITULO X
CAPITULO X Passaram se anos. As estações sucediam se, a curta vida dos animais passava rapidamente. Chegou uma altura em quejá ninguém se lembrava dos velhos tempos anteriores à Revolta, excepto Clover, Benjamin, o corvo Moses e alguns dos porcos. |
| Actualizado em Quinta, 05 Maio 2011 16:22 |
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